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(Parte 2) Fernando Reimers: Ensinar e aprender no século 21

19 de dezembro de 2016 Ouvir o texto

Na primeira parte desta entrevista , o diretor da Iniciativa Global pela Inovação na Educação  de Harvard, Fernando Reimers, refletiu sobre os desafios e impactos promovidos pela globalização, no século 21, no campo da Educação; e falou sobre a metodologia e os objetivos da pesquisa publicada no livro recém-editado pela Edições SM, Ensinar e aprender no século XXI – Metas, políticas educacionais e currículos em seis nações. Nesta segunda parte, Reimers aprofunda as principais questões mapeadas pela pesquisa.

Leia, a seguir, a segunda parte da entrevista.

O senhor mencionou que a Iniciativa Global pela Inovação na Educação é formada por três linhas de trabalho pesquisa, construção de diálogos informados e desenvolvimento de ferramentas. O que vem a ser a construção de diálogos informados?

Fernando Reimers – Os diálogos informados são, essencialmente, uma construção de oportunidades para que grupos com incidência nas políticas e em práticas educativas possam aprender com a pesquisa. Aprendi, em meus primeros trabalhos de pesquisa, que livros não se lêem a si mesmos e que existe uma enorme lacuna entre o conhecimento baseado em pesquisa, as decisões de política educativa e os programas educativos implementados nas escolas públicas.

Quais são os principais desafios para a renovação da educação (ensino e aprendizagem) no século 21?

Fernando Reimers – Apoiar os professores no desenvolvimento de pedagogias que permitam levar à prática as aspirações de um currículo do século 21.

Como a globalização, e as consequentes mudanças socioeconômicas, afetam a escola?

Fernando Reimers – Acho que a globalização aumenta as demandas sobre o que a escola deve fazer para preparar os jovens para se tornarem arquitetos de sua própria vida, em um mundo globalizado. Com a globalização, a oportunidade e necessidade de interagir com pessoas de identidades diversas aumenta. Nem todas as pessoas estão bem preparadas para isso. Alguns se sentem ameaçados por essa diversidade.

O senhor poderia dar um exemplo desta sensação de ameaça diante da diversidade?

Fernando Reimers – Por exemplo, o Southern Poverty Law Center, nos Estados Unidos, documentou um recorde de 867 incidentes de ódio – geralmente, baseados em ódio racial ou religioso –, nos dez dias após as eleições presidenciais, possivelmente como resultado da dividida campanha presidencial americana, com seus atributos anti-imigrantes e anti-globalização. Este desenvolvimento indica que uma proporção significativa da população não aceita o aumento da frequência e da intensidade das interações com pessoas de muitas identidades diferentes, o que caracteriza a globalização.

Em discurso pronunciado no primeiro dia de dezembro, para comemorar a vitória, o presidente eleito, Donald Trump, expressou claramente esse sentimento contra a globalização: “Escutamos muito falar sobre como estamos nos transformando em um mundo globalizado. Porém, as relações que as pessoas valorizam nesse país são as locais”. “Não existe hino global, não existe moeda global, não existe um certificado de cidadania global. Prometemos lealdade a uma bandeira, e essa bandeira é a bandeira americana”, continuou. “De agora em diante vai ser: América primeiro… Ninguém mais voltará a ter interesses de outro tipo que venham antes do interesse do povo americano, isso não vai acontecer de novo”.

Em outubro de 2016, a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, expressou sentimentos semelhantes: “Se você acha que é um cidadão do mundo, você é um cidadão de parte nenhuma. Você não entende o que significa a cidadania”.

Diante desse cenário polarizado, o que podemos esperar do futuro das relações?

Fernando Reimers – No melhor dos casos, essa resistência a um mundo que está se integrando, em uma velocidade acelerada, exacerbará as tensões e nos fará perder muitas oportunidades de colaborar, ao longo das linhas de diferença, para a melhoria do mundo. No pior dos casos, essa rejeição dos resultados da globalização e a discussão de pontos de vista entre as pessoas da mesma nação sobre o valor da cidadania global conduzirão à instabilidade social e ao conflito.

Como a escola pode atuar de forma a dirimir os efeitos dessa aversão às diferenças?

Fernando Reimers – Uma vez que as escolas públicas foram criadas para ajudar o estudante a desenvolver a capacidade de colaborar com os outros, ao longo das linhas de diferença, para a melhoria do mundo, é imperativo que a profissão de docente conduza à preparação do estudante para compreender o mundo em que vive. É complexo reconhecer a forma como as questões mundiais e locais estão interligadas; compreender a globalização e suas consequências, incluídos os riscos globais; apreciar a força que existe em nossa diversidade e diferenças; e ter as habilidades e o desejo de contribuir para a melhoria do mundo. Em resumo, o profissional precisa promover a educação global para a cidadania. Nesse processo, o currículo e os recursos de alta qualidade serão imprescindíveis.

Fale um pouco mais sobre a educação global para a cidadania.

Fernando Reimers – Embora a educação global não seja uma ideia nova, existe uma nova urgência de uma busca mais intencionada. Nem todos os estudantes, que têm a oportunidade de ir à escola, aprendem a reconhecer sua humanidade comum com os outros por meio das diferenças culturais, raciais, religiosas ou nacionais. Nem todos aprendem a ser curiosos com relação a essas diferenças, ou especialistas em descobrir maneiras de utilizar essas diferenças em benefício de uma maior colaboração para abordar, conjuntamente, os desafios que enfrentamos no mundo.

Quais são as habilidades aprendidas na escola que são essenciais para a vida em comunidade no século 21?

Fernando Reimers – No livro Ensinar e aprender no século 21, fazemos uma revisão da pesquisa contemporânea sobre essas habilidades, e as classificamos em três grandes grupos: competências cognitivas, competências interpessoais, e competências intrapessoais.

De forma geral, quais foram as conclusões da investigação?

Fernando Reimers – Comparamos os currículos dos seis países mencionados a partir de uma síntese de investigação contemporânea sobre quais são as competências essenciais para ser um arquiteto da própria vida, no século 21. Descobrimos que as metas do currículo foram ampliadas, mas também que predomina uma ênfase nos objetivos cognitivos, em detrimento do desenvolvimento de competências socioemocionais.

Quais são os principais desafios para a renovação da educação (ensino e aprendizagem) no século 21?

 Fernando Reimers – Apoiar os professores no desenvolvimento de pedagogias que permitam levar à prática as aspirações de um currículo do século 21.

Qual a sua opinião sobre o cenário da educação no Brasil?

Fernando Reimers – Acho que a revisão do currículo no Brasil é um passo importante para fazer com que a educação seja mais relevante.

Leia a primeira parte da entrevista aqui.

Por Priscila Fernandes

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