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Integração e diálogo com o território

5 de outubro de 2017 Ouvir o texto

“A educação autêntica, repitamos, não se faz de ‘A’ para ‘B’, ou de ‘A’ sobre ‘B’, mas de ‘A’ com ‘B’, mediatizados pelo mundo. Mundo que impressiona e desafia a uns e a outros, originando visões ou pontos de vista sobre ele”, Paulo Freire, Pedagogia do Oprimido.

A experiência viva da educação integral aponta: se quisermos caminhar em direção a uma sociedade menos desigual, teremos que estreitar os laços, entabular diálogos e ampliar as fronteiras do olhar. O século em que vivemos gera novos questionamentos e demanda soluções que exigem atitudes inovadoras em relação à aprendizagem.

Projetos implementados Brasil afora confirmam que, para além da ampliação temporal da jornada escolar, a educação integral possibilita a visão da aprendizagem sob o signo do desenvolvimento integral, que acontece por meio das vivências que os sujeitos acumulam não só ao longo da vida escolar, mas ao longo de toda a vida.

Em teoria, pode parecer que a educação integral é a solução mágica para resolver todos os (inúmeros) problemas da educação brasileira e levá-la, finalmente, ao século 21. No entanto, é preciso ressaltar que o conceito, ainda muito novo em terras brasileiras, não vem com manual de instruções e não entrega todas as respostas. Talvez um de seus principais aportes para a construção de uma escola mais contemporânea seja, justamente, a flexibilidade, que permite a cada comunidade escolar adaptar o modelo às suas necessidades, desafios e valores. 

Escola Integrada

A experiência da Escola Integrada, iniciada pela Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte, a partir de 2002, pode dar uma boa ideia de como a concepção de educação integral tem a capacidade de ser criativa o suficiente para abraçar as demandas da comunidade, e de como esta se transforma a partir de um desenho customizado para atendê-la.

O primeiro passo em direção à adoção da ideia foi a promulgação de uma lei, que possibilitou a implementação da jornada escolar de tempo integral no ensino fundamental, em instituições municipais. Com isso, a permanência média do aluno na escola teria que alcançar nove horas diárias, no lugar das antigas quatro horas. Ademais do aumento da carga horária, a lei também assegurava ao aluno, além da formação básica, o acompanhamento de seu desempenho escolar; atividades culturais, artísticas, esportivas e de lazer; atividades que possibilitam a convivência com os colegas e a prática da cidadania; noções de informática; e ainda três refeições diárias.

A primeira instituição a adotar os parâmetros da lei de tempo integral, em Belo Horizonte, foi a Escola Municipal Marechal Humberto Castelo Branco, rebatizada como Escola Municipal Monteiro Lobato. Na época de sua inauguração, a Secretaria começou a pensar no plano de conversão das 189 escolas da rede ao sistema de tempo integral. O processo trouxe à tona vários impasses, desafios e exigências, que poderiam colocar em risco a continuidade do projeto. Quanto tempo seria necessário para implementar o programa em todas as escolas? Qual a estrutura básica para a realização das atividades? Seria mais viável transformar as edificações para atender às solicitações do programa? Ou a solução seria construir novas instalações?

Foi com essas indagações em mente que os representantes da Secretaria participaram do Fórum Mundial Social de Nova Iguaçu, em 2006. O contato com a proposta de aprendizagem do bairro-escola, desenvolvido em Nova Iguaçu, seria um dos marcos para a expansão do olhar sobre as questões mapeadas no Escola Integrada.

A partir daí, teve início o planejamento do projeto de educação integral em Belo Horizonte, e, com ele, surgiram novos questionamentos. Para que o programa fosse bem-sucedido foi imprescindível envolver outras Secretarias e levar em consideração a questão do território. A equipe da Prefeitura entendeu que precisava conhecer e aprender novos conceitos, experiências e metodologias. Neste momento, a parceria com o Aprendiz foi estratégica para a elaboração do projeto e reflexão sobre novos arranjos escolares.

As equipe intersetoriais passaram a trabalhar com a tecnologia de georreferenciamento, mapeando o entorno da escola candidata a participar do programa. Com o entorno mapeado, era preciso abrir e estabelecer um diálogo com a comunidade escolar. A resposta viria com a formação de professores comunitários, ministrada pelo Aprendiz.

Com a adesão voluntária de cinquenta escolas, o programa ganhou vulto e passou a ter uma gestão compartilhada por diversas Secretarias (Educação, Cultura, Saúde, Transporte, Obras, Esporte, Infraestrutura, Abastecimento e Assistência Social ), sob a coordenação da Secretaria do Planejamento. A parceria com agentes da comunidade, lideranças locais e universidades foi outra estratégia importante para o desenho do projeto. Ao envolver diferentes atores, o programa abriu a escola, num diálogo inédito com a comunidade e suas diferentes práticas.

O engajamento da comunidade gerou um grande impacto no território. Ruas mais limpas e seguras, motoristas mais atentos ao entorno, moradores mais unidos e informados, familiares mais conscientes. E, o mais importante, a garantia de uma aprendizagem significativa para crianças e jovens.

A experiência bem-sucedida de Belo Horizonte e o projeto Bairro-Escola Nova Iguaçu dariam origem ao embrião do Programa Mais Educação, implementado na gestão do Ministro da Educação, Fernando Haddad, durante o governo do Presidente Lula. 

Impacto

Para além da mensuração do impacto do programa na aprendizagem, a partir de métricas oficiais como o IDEB, existem pesquisas que apontam o aumento do envolvimento de pais e alunos com o processo educativo. Segundo o relatório Avaliação Econômica do Programa Escola Integrada, publicado pela Fundação Itaú Social, em relação ao período de 2007 a 2010, os responsáveis pelas crianças que passaram a frequentar a Escola Integrada notaram mudanças positivas de hábitos e atitudes, como o aumento da leitura de livros, revistas e jornais; o aumento do tempo de uso do computador; uma maior participação em atividades culturais; um maior interesse e dedicação aos estudos; e melhores hábitos de higiene. Os técnicos consideram que a política contribuiu “para a construção de um ambiente propício ao desenvolvimento das crianças, dentro e fora da escola, com a mudança de diversos hábitos associados ao melhor aproveitamento do aluno”.

Os resultados da Escola Integrada e do Mais Educação são positivos. No entanto, ainda existe um longo percurso pela frente até a consolidação de uma escola que garanta uma aprendizagem contemporânea para todos os estudantes. A escola é um importante agente educador, lugar de encontro entre crianças, adolescentes e comunidade. A educação integral propõe não só a reconfiguração e estreitamento desses laços, como também novas possibilidades educativas, mais focadas numa perspectiva de formação integral do indivíduo.

 

*Pilar Lacerda é Diretora da Fundação SM. Este artigo foi publicado originalmente no livro Aprendiz, 20 anos de histórias e reinvenção, edição comemorativa dos 20 anos da Cidade Escola Aprendiz (2017).

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