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Gina Vieira Ponte – Inspirar e ser inspirado

6 de maio de 2017 Ouvir o texto

Em 2014, a professora de Ceilândia, Brasília, Gina Vieira Ponte de Albuquerque, deu início a um projeto pedagógico com alunos do 9º ano, da rede pública, intitulado Mulheres Inspiradoras, que transformaria não só o olhar e a postura dos adolescentes, como causaria um grande impacto na vida da professora e da comunidade de seu entorno. O reconhecimento viria, no ano seguinte, com a conquista de diversos prêmios, entre eles o Prêmio Professores do Brasil, o Prêmio Nacional de Educação em Direitos Humanos e o Prêmio Ibero-americano de Educação em Direitos Humanos.

Em entrevista à Fundação SM, a professora fala sobre seu percurso na área da educação, sobre os desafios da profissão e sobre a experiência de transformação e superação a partir do desenvolvimento do projeto Mulheres Inspiradoras.

Fundação SM – Como tem início a sua história com a educação, com a docência?

Gina Vieira Ponte de Albuquerque – Ser professora sempre foi uma coisa muito importante para mim. Eu tinha uma concepção do professor como aquele sujeito que vai provocar transformação. Então, entrei para a profissão muito cedo, fiz um concurso com 18 anos e, aos 19, já era professora. Mas, à medida que fui mergulhando nesse universo, no espaço escolar, a partir do lugar de professora, foram surgindo questões que me incomodavam muito.

FSM – Você poderia exemplificar?

G.A. – Por exemplo, chegou um momento em que eu entrava na sala de aula e não percebia os meninos engajados. Eles não se envolviam nas atividades que a gente propunha na escola; era como se produzissem uma exclusão, mesmo estando dentro da escola.

FSM – Qual foi a sua reação ao constatar a falta de engajamento dos alunos?

G.A. – Aquilo era motivo de muito sofrimento para mim, porque eu sabia o quanto eles precisavam da educação formal. E eu tinha estudado naquela escola, durante a minha infância, e tinha vivido uma experiência pessoal de transformação a partir da educação. Acreditava que todos eles precisavam viver aquela experiência que eu vivi. Comecei um processo de indagação e, aos poucos, fui adoecendo. Cogitei abandonar a profissão. Dizia para mim mesma que se eu não estava vendo sentido no que estava fazendo, e não estava reverberando como eu esperava na vida dos meus estudantes, o mais digno seria deixar a profissão.

FSM – O que te fez mudar de ideia?

G.A. – De alguma maneira, a minha intuição me levou a insistir um pouco mais. Eu entendi que precisava estudar para encontrar as respostas para as minhas perguntas – Por que crianças e jovens não estão se envolvendo com a escola? Por que entram na escola, mas não se engajam naquilo que a gente propõe? Fiz vários cursos de extensão e quatro especializações, porque eu estava desesperada para achar as respostas.

FSM – Você encontrou as respostas? Pode compartilhar?

G.A. – Encontrei várias respostas. Mas posso resumir tudo o que compreendi, nesse processo de imersão, em duas questões essenciais. Primeiro, observei que o modelo educacional prevalecente impõe aos alunos a condição de estar na escola, a maior parte do tempo, fazendo cópia – do quadro, do livro –, e empreendendo pouco esforço naquilo que realmente gera aprendizagem. Também temos uma escola que valoriza pouco a subjetividade do aluno, que muitas vezes trabalha na lógica do silenciamento da subjetividade, e que também despreza a identidade local, a identidade da comunidade. Os jovens não conversam com a escola, pois a escola não está aberta ao diálogo. O segundo ponto foi perceber que a escola tem dificuldade de entender como as novas tecnologias impactaram a personalidade, a identidade e a forma de pensar e perceber o mundo dessas novas gerações de nativos digitais.

FSM – Como você lidou com tais questões?

G.A. – Estava diante dos desafios de superar o modelo educacional, que não atende as necessidades de crianças e adolescentes, e de trazer as novas tecnologias para a minha prática pedagógica. Então, criei uma conta em uma rede social para observar como os meus alunos se comportavam, que conteúdos eles acessavam e postavam. Eu queria me aproximar deles e, se aquele era um espaço importante para eles, imaginei que seria um caminho. Me deparei com um vídeo, em que uma menina, que devia ter entre 14 e 15 anos, se apresentava dançando uma música extremamente depreciativa da figura feminina. Além disso, a coreografia era altamente erotizada e as roupas que ela usava colocavam o corpo em evidência. Aquilo me incomodou, porque fiquei me perguntando se aquela menina tinha consciência dos riscos que corria – desde ter a imagem levada para alimentar um site de pedofilia ou de pornografia, até o fato de que, daqui dez, vinte anos, ela pode pensar diferente e se constranger de imaginar que aquele vídeo continua circulando nas redes. Fiquei profundamente incomodada e fui estudar para entender o que levava a menina a fazer aquilo.

FSM – Nesse sentido, para que caminhos as suas pesquisas apontaram?

G.A. – A resposta que eu encontrei é que a gente tem, dentro da nossa cultura, uma representação feminina muito negativa, uma representação da mulher que sempre remete ao quanto ela é desejável e ao quanto corresponde a um determinado padrão de beleza. As nossas meninas, crianças e adolescentes, são expostas, desde muito pequenas, a conteúdos que, pouco a pouco, vão convencendo que a mulher só tem validação na condição de objeto sexual masculino.

 

FSM – Essa reflexão deu origem ao projeto “Mulheres inspiradoras”?

G.A. – Eu fiquei pensando em como lidar com a situação de maneira reflexiva, crítica e sem empreender um discurso moralista – o que seria um risco, uma vez que se a pessoa chega com um discurso que tem uma verdade, fecha as possibilidades de diálogo. O meu raciocínio foi o seguinte: se os nossos alunos e alunas estão se inspirando nesse referencial de mulher como objeto sexual, que tal se a gente ampliar o repertório cultural deles com outras referências? Foi aí que surgiu o projeto Mulheres Inspiradoras. Fui buscar mulheres que pudessem ser fontes de inspiração para as minhas alunas e que fugissem a essas representações estereotipadas.

FSM – O projeto fazia parte da grade curricular?

G.A. – Sim. Eu tinha três aulas por semana, no componente curricular chamado Parte Diversificada (PD). Todas as escolas têm esse componente curricular, que dá muita liberdade para fazer aquilo que a escola considera uma necessidade específica.

FSM – A gestão da escola apoiou o projeto?

G.A. – Minha supervisora pedagógica, a professora Vitória, é uma grande parceira no projeto. Apresentei a minha preocupação sobre a questão das meninas, e ela propôs o uso do PD para o desenvolvimento do projeto. Essa é uma disciplina que não reprova, então, o risco seria que os meninos simplesmente rechaçassem o projeto. Mas, resolvemos tentar.

FSM – Como foi estruturado o projeto?

G.A. – O projeto contou com diversas ações. Primeiro, propus a leitura de seis obras de autoria feminina – Diário de Anne Frank, de Anne Frank; Eu sou Malala, de Malala Yousafzai; Quarto de despejo – Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus; e três obras de uma escritora de Brasília, chamada Cristiane Sobral. Concomitante, a gente propôs que eles conhecessem a biografia de 10 grandes mulheres. Formamos um time bem eclético, com mulheres jovens, idosas, brancas, negras, com muita escolaridade e com pouquíssima escolaridade. Minha ideia era mostrar que, seja qual for a condição da mulher, ela pode ser inspiradora, pode mover o mundo com energia própria. Nesse ponto, também achei que seria interessante valorizar a identidade local. Então, trouxe mulheres da comunidade, que de alguma maneira impactaram as histórias de suas famílias e de suas localidades, ao ponto de servirem como referência positiva. Na última etapa do projeto, propus que os alunos pensassem na própria vida. A partir do conceito de mulher inspiradora, que pensassem na mulher inspiradora da vida deles. A maioria escolheu a mãe, a avó e a bisavó.

FSM – As mulheres escolhidas foram envolvidas no processo?

G.A. – A proposta era que eles entrevistassem essas mulheres. O projeto foi muito focado na leitura e na escrita autoral. Cada um escreveu um texto contando a biografia da mulher escolhida, e dizendo o porquê dela ser inspiradora. Essa foi, certamente, a parte do projeto que mais me surpreendeu.

FSM – O que te surpreendeu nessa etapa?

G.A. – Tive a bênção de ter uma mãe que era uma contadora de histórias contumaz, e, por isso, lembro de detalhes da vida dela. Ao conversar com os alunos, durante o processo de preparação da entrevista – que, aliás, seria mais do que uma entrevista, seria um momento de encontro do filho com a mãe, do neto com a avó –, percebi que eles tinham algumas lacunas de conhecimento sobre a história dessas mulheres.

FSM – Como foi a preparação para as entrevistas? Que perspectivas o projeto considerou?

G.A. – Os alunos aprenderam a fazer uma entrevista a partir da perspectiva da história de vida. Aprenderam como gravar, como transcrever, o que significa uma escuta ativa e uma escuta sensível, e como é estar plenamente disponível durante a entrevista. Fizemos um trabalho bem minucioso de construção de um roteiro, que permitisse sanar as lacunas existentes. O resultado foi que eles voltaram da conversa muito impactados, contando as descobertas. Eles também revelaram o quanto tinha sido surpreendente para a mulher escolhida receber o título de “inspiradora”. Essas mulheres não têm consciência de sua importância.

FSM – E qual foi a reação, a postura dessas mulheres após a entrevista?

G.A. – Alguns alunos contaram que as mães não deixaram apagar a entrevista e que ficaram pedindo para ouvir a gravação. Foi aí que lembrei que o Riobaldo [personagem de Guimarães Rosa] diz, no Grande Sertão Veredas, que o narrar elabora o viver. Quando contamos nossa história, organizamos melhor a existência. E aquela mulher estava, ali, contando sua história não para qualquer interlocutor, mas para um filho, um neto, um bisneto. Fiquei encantada.

FSM – No total, quantas histórias foram recolhidas? E o que mais chama a atenção nessas histórias?

G.A. – Fiquei muito surpresa com o fato de que, nas 150 histórias, a grande figura era a mulher. Decisiva para a manutenção, o sustento e a sobrevivência daquele adolescente e daquela família. Foi muito forte descobrir o quanto essas mulheres estavam machucadas e o quanto foi importante para elas serem ouvidas. Algumas delas até ligaram para a escola para agradecer a oportunidade de contar a própria história. Recebemos o depoimento de uma mãe, no conselho de classe, sobre como o projeto tinha reaproximado ela e o filho. Quando eu li a coletânea, também descobri a história da nossa cidade, contada por um sujeito que historicamente é silenciado; a história de Ceilândia e de Brasília, contada pelas narrativas de mulheres. Daí, achei que era um material muito precioso para ficar engavetado ou para ser apenas objeto da avaliação da produção de texto de um aluno.

Continua em breve.

Prêmio Ibero-americano de Educação em Direitos Humanos

Promovido pela Fundação SM em parceria com a Organização de Estados Ibero-americanos – OEI (http://oei.org.br), a premiação busca reconhecer o trabalho de instituições de ensino que tenham se destacado na defesa e promoção dos direitos humanos.

Por Priscila Fernandes

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